Filme ‘O Agente Secreto’ escancara terror psicológico da ditadura
São Paulo/SP – O sucesso internacional de “O Agente Secreto”, indicado ao Oscar 2026, reacende o debate sobre como a ditadura militar brasileira (1964-1985) transformou a difusão psicológica do terror em política de Estado, afirma o psicanalista Rafael Alves Lima, professor da USP.
- Em resumo: especialista alerta que, sem responsabilização pelos crimes, o trauma coletivo tende a se repetir.
Como o medo virou arma oficial
De acordo com Lima, a censura e as prisões arbitrárias criaram um ambiente em que “falar e escutar tornaram-se atos temerários”. A tática era simples e eficaz: punir poucos para amedrontar muitos, estratégia descrita no Atlas da Violência como típica de regimes autoritários.
Essa lógica, lembra o pesquisador, atravessava salas de aula, sindicatos e até restaurantes, cenário central do filme de Kleber Mendonça Filho. O resultado era o “retraimento subjetivo” – uma autocensura que minava a vida pública e corroía laços sociais.
“Há um método, mas o método era justamente espalhar o pavor”, resume Rafael Alves Lima.
Trauma que não cicatriza
Sob tortura, explica o psicanalista, o indivíduo recorre a uma “autotomia psíquica”, conceito do húngaro Sándor Ferenczi – “brilhante discípulo da primeira geração de Freud” – para descrever a dissociação que garante a sobrevivência imediata, mas deixa feridas profundas.
Sem políticas contínuas de memória, verdade e justiça, essas feridas atravessam gerações. Levantamento da Comissão de Anistia aponta mais de 11 mil pedidos de reparação ainda pendentes. Já estudos da USP indicam que familiares de desaparecidos apresentam índices de depressão 40% superiores à média brasileira.

O filme e o presente
Ao mostrar um professor universitário perseguido por um empresário aliado ao regime, “O Agente Secreto” derruba a ideia de que apenas militantes armados foram alvo da repressão. O longa também dialoga com a violência estatal de hoje: em 2022, o Brasil registrou 6.400 mortes decorrentes de intervenção policial, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública – número comparável aos anos mais duros da ditadura.
Para Lima, a arte cumpre papel crucial ao “reabilitar a dignidade da palavra” e desafiar o silêncio ainda imposto por setores que defendem uma falsa pacificação. “Lembrar não é revanchismo, é prevenção”, adverte.
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Crédito da imagem: Divulgação / G1
