Herança controla roteiro de 'Michael' e abafa polêmicas

LOS ANGELES – Anunciada para chegar aos cinemas nesta terça-feira (21), a cinebiografia “Michael” entrega números musicais de tirar o fôlego, mas evita mergulhar nas controvérsias que moldaram o Rei do Pop, de acusações de abuso às brigas criativas que marcaram sua trajetória.

  • Em resumo: Espólio de Jackson participa da produção e mantém fora de cena as denúncias mais explosivas.

Aplausos para o palco, silêncio para o bastidor

Dirigido por Antoine Fuqua, o longa acompanha Michael Jackson da infância ao fim dos anos 1980. A atuação de Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, convence nos gestos e na voz, sobretudo nas cenas recriadas a partir de clipes disponíveis no YouTube oficial do artista. No entanto, temas como o distúrbio de imagem, o vício em analgésicos e o projeto Neverland passam depressa ou são simplesmente omitidos.

A exclusão mais sentida, porém, é a das denúncias de abuso sexual. Segundo o Variety, as referências foram cortadas após impasse jurídico com acusadores, resultando em um novo final “prudente” que termina antes das primeiras investigações, em 1993.

“Na vida, ou você é um vencedor ou um perdedor”, repete Joseph Jackson no filme, condensando o tom agressivo que dominava os ensaios familiares.

Contexto: por que isso importa?

Hollywood descobriu nas cinebios musicais um filão lucrativo. “Bohemian Rhapsody” (2018) superou US$ 910 milhões em bilheteria mundial, segundo Box Office Mojo, apesar de críticas por suavizar conflitos internos do Queen. “Michael” segue a mesma fórmula: trilha impecável, roteiro domesticado.

Especialistas apontam que retratos autorizados tendem a reforçar a narrativa dos herdeiros. Ao assumir a produção executiva, o espólio do artista garantiu controle criativo – e sanitizou passagens sobre Quincy Jones, Janet Jackson e a ruptura com a Motown, todos tratados de forma periférica.

A decisão pode custar caro. Uma pesquisa da USC Annenberg mostrou que 62 % do público abandona biografias que escondem controvérsias já conhecidas, minando a confiança na obra e reduzindo a taxa de recompra de ingressos para exibições IMAX – formato no qual “Michael” estreia simultaneamente.

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Crédito da imagem: Divulgação

Ana Catarina

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