Facções disputam portos do Ceará para tráfico internacional
Facções disputam portos do Ceará para tráfico internacional – Um relatório sigiloso da Polícia Civil revela que a facção carioca Comando Vermelho (CV) e o grupo cearense Guardiões do Estado (GDE) travam, desde meados de 2025, uma batalha pelo domínio dos bairros vizinhos aos portos do Pecém e do Mucuripe, considerados portas de saída de cocaína rumo à Europa e aos Estados Unidos.
A disputa, segundo o documento, acirrou-se após o CV consolidar presença no Pecém e avançar sobre o entorno do Mucuripe, em Fortaleza, área historicamente influenciada pela GDE – aliada do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Localização estratégica estimula guerra territorial
Juntos, Pecém e Mucuripe movimentam quase 100% das cargas marítimas cearenses. O primeiro responde por 80%, enquanto o segundo concentra 20%. A proximidade com rotas navais atlânticas torna os terminais cearenses cobiçados por facções, que visam reduzir tempo e custo no envio de entorpecentes.
Estudos do Atlas da Violência indicam que estados com hubs logísticos internacionais apresentam maior risco de consolidação do crime organizado, reforçando o alerta sobre o Ceará.
Como operam os grupos criminosos
O relatório descreve o método “Rip On/Rip Off”, em que contêineres são “contaminados” após inspeções oficiais. Funcionários cooptados – de operadores de guindaste a responsáveis pelo scanner – recebem propina para inserir pacotes de cocaína em cargas lícitas.
Em 2019, esse esquema levou à apreensão de 329 quilos de cocaína escondidos em contêiner de mel com destino à Bélgica. A investigação desmantelou quadrilha interestadual que, em cinco anos, movimentou mais de 7 toneladas da droga.
Expansão criminal além das drogas
Especialistas apontam que facções passaram a explorar mercados paralelos, cobrando “taxas” sobre serviços como internet, transporte alternativo e comércio ambulante. A prática replica o modelo de milícias cariocas e amplia a dependência econômica das comunidades sob domínio armado.
Para o professor Fillipe Azevedo, da UFRN, a diversificação “garante renda constante mesmo quando as rotas internacionais são interrompidas por operações policiais”.

Repercussão e ações das autoridades
A Secretaria da Segurança Pública do Ceará foi questionada sobre medidas para conter a escalada da violência nos bairros litorâneos, mas ainda não se pronunciou. Enquanto isso, operações da Polícia Federal seguiram apreendendo cocaína nos terminais: só em fevereiro de 2025 foram dois carregamentos, somando 549 quilos.
Moradores relatam rotina de tiroteios e fechamento de escolas, cenário que lembra a crise de 2018, quando o confronto entre CV, GDE e PCC elevou os índices de homicídios no estado.
No contexto de disputas por territórios portuários, analistas temem que a violência se prolongue, impactando economia, turismo e a sensação de segurança nas áreas costeiras.
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Crédito da imagem: Divulgação / Companhia Docas do Ceará
