Geladeira içada e 744 mil fãs: rotina real da Rocinha

RIO DE JANEIRO – Quando uma geladeira precisa voar pendurada em cordas para caber numa janela de alvenaria improvisada, o vídeo chega a 744 mil pessoas em segundos. É assim que Ruan Gabriel da Silva Nascimento, o Ruan Juliett, transformou a própria rotina na Rocinha, a favela mais populosa do Brasil, em fenômeno de redes sociais.

  • Em resumo: cenas do cotidiano sem filtro renderam ao morador 744 mil seguidores no Instagram e mais de 900 mil no TikTok.

Por dentro da “cidade vertical”

No feed de Ruan, motos disputam centímetros num asfalto estreito, enquanto becos de 40 cm de largura conectam casas empilhadas. Segundo estimativa do IBGE sobre aglomerados subnormais, mais de 100 mil pessoas vivem nesse labirinto urbano — população superior à de 94% dos municípios fluminenses.

É ali que o influenciador grava diariamente, sem roteiro. Ele vendeu controles remotos na banca do pai até 2023; hoje, cresce turbinado por “lives” que exibem desde mototaxistas levando turistas até a gincana de idosos para subir escadarias íngremes sem corrimão.

“A vida aqui é uma verdadeira adaptação. A gente aprende a se virar”, resume o criador de conteúdo.

Por que esse conteúdo quebra estigmas

Nos anos 1990, o noticiário associava favelas quase exclusivamente à violência. Ao mostrar barbeiro atendendo no terraço, crianças brincando nos becos e empreendedores locais, Ruan contrasta essa visão — sem ignorar falhas de infraestrutura. O alcance é estratégico: o Brasil tem 171 mil influenciadores de médio a grande porte, conforme dados da Análise iCharts 2024, mas poucos moram em aglomerados.

Especialistas em comunicação comunitária apontam que relatos nativos favorecem políticas públicas, porque pressionam governantes com provas audiovisuais de ausência de coleta de lixo e acesso precário a serviços básicos. A Prefeitura do Rio, por exemplo, instalou corrimões em sete vielas da Rocinha desde 2022, medida que moradores atribuem à repercussão do tema nas redes.

Da visibilidade à mudança concreta

Monetização recente permitiu a Ruan trocar eletrodomésticos velhos e iniciar, tijolo a tijolo, a construção de uma casa para os pais. Entre 2023 e 2024, a receita vinda de publicidade digital cresceu 180%, segundo ele. Cada etapa da obra — do preço da diária do pedreiro ao “frete humano” que leva cimento nos ombros — vira conteúdo e inspira outros jovens da comunidade a empreender online.

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Crédito da imagem: Divulgação

Ana Catarina

Sou jornalista independente, dedicada à apuração rigorosa e à produção de conteúdos informativos de qualidade. Busco levar notícias relevantes com linguagem clara, responsabilidade e compromisso com a verdade.