Padre Cícero e Lampião: detalhes do encontro de 1926
Padre Cícero e Lampião: detalhes do encontro de 1926 – O mítico encontro entre o sacerdote e o “Rei do Cangaço” ocorreu em março de 1926, em Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, quando o bando foi convocado para reforçar os Batalhões Patrióticos contra a Coluna Prestes.
A chegada de Virgulino Ferreira da Silva, com cerca de 50 cangaceiros, mobilizou autoridades locais e curiosos, mas terminou sem registro de violência, fato que reforçou a aura de milagre atribuída ao líder religioso.
Por que Lampião foi chamado ao Cariri
Naquele ano, o governo federal temia o avanço da Coluna Prestes pelo Nordeste. A solução encontrada foi recrutar grupos armados regionais, entre eles o temido cangaceiro, mediante promessa de armamentos, dinheiro e patente.
No Cariri, o deputado Floro Bartolomeu – aliado político do “padim” – articulou o convite. O título de capitão, embora sem validade oficial, passou a ser ostentado por Lampião a partir daí, segundo o acervo do Atlas da Violência, que reúne documentos sobre banditismo e segurança pública no período.
Como se deu a reunião com Padre Cícero
Os cangaceiros foram recebidos em um sobrado pertencente ao poeta João Mendes. Testemunhas relatam que Padre Cícero visitou o local ainda na primeira noite, aconselhando Lampião a abandonar o crime e buscar vida honesta.
Sem fotos do momento, o episódio chegou aos dias atuais por relatos de moradores, jornalistas da época e cordelistas. Lampião, devoto do Sagrado Coração de Jesus, usava um broche com a imagem do sacerdote nas vestes.
Consequências do acordo que não saiu do papel
O combate à Coluna Prestes não se concretizou porque a tropa mudou de rota. Ainda assim, a visita rendeu entrevistas, sessões fotográficas e reforçou o imaginário popular. Três semanas depois, o jornal “O Ceará” publicou declarações de Lampião elogiando o estado e o “santo sacerdote”.
Floro Bartolomeu morreu em 8 de março de 1926, antes de oficializar a patente prometida. O documento acabou assinado por um agrônomo federal, o que não lhe conferiu legitimidade militar. Mesmo assim, o cangaceiro adotou a alcunha de “Capitão Virgulino” até sua morte, em 1938.

Além do simbolismo religioso, o encontro mostrou a fragilidade do Estado brasileiro na década de 1920, que chegou a recorrer a bandoleiros para conter revoltas armadas, contexto que seria decisivo para as mudanças políticas de 1930.
Sessenta anos após o episódio, as fotografias feitas pelos profissionais Pedro Maia e Lauro Cabral ainda ilustram livros, exposições e pesquisas acadêmicas sobre o cangaço.
Curiosidade adicional: estimativas de pesquisadores indicam que, entre 1922 e 1938, conflitos envolvendo cangaceiros causaram mais de 1,2 mil mortes no Nordeste, reforçando a relevância histórica desse período para os estudos de segurança pública.
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Crédito da imagem: Divulgação / Museu da Fotografia do Cariri
