Havana, Cuba – Documentos vazados revelam que a holding militar Gaesa, ligada às Forças Armadas Revolucionárias, detém ao menos US$ 17,9 bilhões em ativos, dos quais US$ 14,4 bilhões descansam em contas bancárias não auditadas. O montante contrasta com a queda de 15% do PIB cubano nos últimos cinco anos e com a estimativa de que quase 90% da população viva em extrema pobreza.
- Em resumo: grupo controlaria 40% do PIB, mas não presta contas nem ao Parlamento.
Por dentro do conglomerado militar
Fundada nos anos 1990 para captar divisas no turismo, a Gaesa transformou-se em um “polvo” que monopoliza hotéis, bancos, telecomunicações e exportações. Segundo a consultoria Havana Consulting Group, são menos de 15 nomes no topo da estrutura, todos próximos ao ex-presidente Raúl Castro. O falecido general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, ex-genro de Raúl, foi o arquiteto da expansão que englobou gigantes como a Cimex e a operadora Gaviota.
O segredo é tamanho que nem a Controladoria da República nem a Assembleia Nacional podem fiscalizar as contas. Para especialistas, a holding funciona como um “Estado dentro do Estado”, usando o aparato militar para blindar dados e movimentar divisas por redes societárias em paraísos fiscais. Em 2024, a margem de lucro declarada chegou a 38%, patamar raríssimo em conglomerados globais, de acordo com dados comparativos do Banco Central.
"A Gaesa funciona como uma grande holding, um polvo de vários braços que se apropriou da economia cubana em quase todos os seus setores rentáveis", disse Emilio Morales, presidente da Havana Consulting Group.
Bilhões à sombra da crise
Enquanto a ilha enfrenta apagões diários e filas por alimentos, a Gaesa mantém reservas próprias que superam as de países como Paraguai ou Equador. Economistas lembram que esse dinheiro opera fora do Banco Central de Cuba; parte estaria distribuída em bancos russos, chineses e contas offshore para escapar de sanções. Para efeito de comparação, as reservas formais cubanas somam cerca de US$ 8 bilhões, metade do que o grupo militar controla informalmente.
A concentração de investimentos em turismo, mesmo com a queda de visitantes de 4,7 milhões (2018) para 1,8 milhão (2025), agravou gargalos de energia e produção agrícola. Hoje, a agricultura local cobre apenas 20% da demanda interna, segundo a CEPAL. Analistas argumentam que redirecionar parte dos ativos da Gaesa poderia modernizar usinas elétricas e reduzir a dependência de importações de alimentos e combustíveis.
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Crédito da imagem: Getty Images via BBC